É comum ouvir por aí que a cerveja é feita com cinco ingredientes básicos: água, malte, lúpulo, levedura e marketing. Para certas marcas, esse quinto elemento é muito mais importante que os outros quatro. Escrevo o post de hoje motivado pelo episódio recente envolvendo o blogueiro, humorista e estudante Ronald Rios e a Skol. Tento resumir: dentro da campanha “Redondo é rir da vida“, a cerveja da Ambev pediu aos consumidores que mandassem vídeos contando situações embaraçosas que, com o tempo, se tornariam engraçadas, com o mote “um dia ainda vou rir disso”. Pois bem, seria mais um desses casos em que as marcas tentam explorar os recursos da web dita 2.0 e recebem uma enxurrada de contribuições espontâneas, o famoso conteúdo gerado pelo usuário (UGC, na sigla em inglês), que fez a fama e a fortuna de sites dentre os quais o YouTube é o exemplo mais notável (e rentável).
Acontece que o Ronald Rios resolveu usar de humor negro para entrar na brincadeira. Na verdade, ele nem chegou a mandar seu vídeo para a Skol, mas postou nos canais onde costuma divulgar seus esquetes cômicos. As imagens ganharam fama rápida na internet. Nelas, Rios aparece contando histórias trágicas de parentes alcoólatras e agressivos, que batiam na família e sofriam acidentes de carro ao dirigir alcoolizados. Ao final de cada história, gargalhadas, dentro do espírito “ainda vou rir disso”.
A F/Nazca, agência de publicidade que criou a campanha, não gostou da gozação. Por email, um executivo da empresa solicitou que o humorista retirasse o vídeo do ar, alegando que este usava a marca de forma indevida e prejudicava a imagem de seu cliente. Temendo um processo judicial, Rios apagou o vídeo. Nesse momento a Skol conseguiu o que queria, mas em sentido inverso. O vídeo mais comentado da campanha passou a ser justamente o banido. Amigos, fãs e cyberativistas prontos a comprar uma briga de David contra Golias (a internet está cheia desses) passaram a espalhar a história em sites, blogs e no Twitter. Veja exemplos aqui, aqui e aqui.
O caso é um prato cheio de temas pra discussão. Vou me limitar aos três do título do post. Sobre marketing, ficou claro que não basta uma boa idéia para gerar buzz favorável na web. O território da internet é livre e caótico. Poucos dominam suas nuances e tem muita gente boa quebrando a cara entre banners e pixels. Como disse o próprio Ronald Rios, “se você não aguenta o calor, porque entra na cozinha?”
Sobre alcoolismo e cerveja o buraco é ainda mais embaixo. Cerveja tem álcool e, como outras drogas, pode causar dependência. Esse blog defende e faz apologia, sim, do consumo, mas com moderação. Cervejas especiais, mais encorpadas (não necessariamente mais alcoólicas), vão satisfazer o paladar em uma ou duas garrafas. Harmonizar cerveja com boa gastronomia pode ser uma experiência tão sublime que apenas um copo será suficiente.
Mas não sejamos hipócritas. Para quebrar tabus, nada como a informação e o debate aberto. E este blog se propõe a discutir a questão. E convida os fabricantes a fazer o mesmo. Neste momento em que a responsabilidade social corporativa está tão em voga, temos uma boa oportunidade para nos debruçarmos sobre a questão. Qual a graça de tomar cerveja ruim apenas para ficar bêbado? Consultei a Ambev sobre o tema e recebi a seguinte resposta:
“Consumo Responsável na nossa visão é aquele que evita:
1) o excesso
2) a associação com direção de veículos
3) menores de idade consumindo
4) consumo durante a gravidez
5) consumo associado a medicamentos
No caso de alcoolismo, o ideal é que não haja consumo, zero.”
Fico por aqui, mas prometo voltar ao assunto, sempre que solicitado. E que todos possam refletir sobre o episódio: bebedores, marqueteiros, fabricantes e o próprio Ronald Rios que, ao fazer piada, tocou num assunto muito sério.
Este foi texto copiado na íntegra do Blog Cerveja Só. Recomendo!
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